O envolvimento do sistema nervoso na dor
Atualizado: 3 de out.
Para começar, é mais fácil se imaginarmos um corte num dedo.
No artigo anterior vimos que a dor é uma experiência e que não é a mesma coisa que dano. Agora vamos seguir esse corte do princípio ao fim, para perceber o que acontece no corpo desde o momento em que nos magoamos até sentirmos dor.
Onde começa
O dedo fica vermelho, inchado e dói. Estes são os sinais da inflamação. Durante este processo, chegam ao local células de defesa do corpo e são libertadas substâncias químicas a que chamamos mediadores da inflamação.
Estas substâncias têm duas funções. Ajudam o processo de reparação do tecido e, ao mesmo tempo, tornam a zona mais sensível, para que a informação sobre o que ali se passa seja transmitida com mais facilidade.
É por isso que uma zona inflamada dói mais ao toque do que uma zona saudável. É o corpo a proteger a área enquanto ela repara.
A viagem até à medula
A informação sobre o que está a acontecer no dedo tem de chegar ao resto do sistema nervoso. Essa transmissão faz-se de célula em célula, por vias que percorrem o corpo.
A algumas dessas vias chamamos fibras da dor, embora o nome não seja rigoroso: elas não transmitem apenas informação relacionada com dor, e a informação que levam ainda não é dor. Usamos o termo para simplificar.
Essas fibras levam a informação até à medula espinal.
Na medula existe uma zona onde esta informação é filtrada antes de seguir para o cérebro. Uma forma de a imaginar é como um portão.
O portão pode estar mais aberto ou mais fechado, e isso varia de pessoa para pessoa e de momento para momento. Quanto mais aberto está, mais informação passa.
O que pode manter o portão mais aberto
Uma lesão ou inflamação.
Estar com a atenção focada na dor.
Ansiedade
Dormir mal.
Experiências difíceis vividas no passado.
O que pode ajudar a fechar o portão
Esfregar a zona. Quando batemos com o cotovelo na porta, o primeiro instinto é esfregar. Isso ativa outras fibras, que levam informação de toque e pressão, e que competem com as da dor pela passagem no portão.
Calor ou frio aplicados no local, que funcionam de forma parecida.
Distração.
Exercício físico.
Sentirmo-nos seguros.
Estar com pessoas de quem gostamos
Isto explica uma coisa que já experimentaste: a mesma pancada pode doer de maneiras diferentes consoante o dia, o sítio e com quem estás.
A chegada ao cérebro
A informação que passa o portão sobe até ao cérebro. E aqui não vai parar a um sítio só.
A dor não acontece numa única área do cérebro. É uma experiência produzida pela interação de várias regiões do cérebro e do sistema nervoso, e não só: o sistema imunitário e o sistema hormonal também participam.
Nestas áreas reparamos no que está a acontecer, percebemos onde está o potencial dano, sentimos as emoções associadas, e vamos buscar experiências anteriores, aquilo que aprendemos ao longo da vida e o que a nossa cultura nos ensinou a fazer nestas situações.
Nenhuma destas áreas existe só para a dor. Todas elas fazem outras coisas, e é por isso que a dor é influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais. É a isto que chamamos modelo biopsicossocial.

Imagem generada com suporte de AI.
E o caminho de volta
Este processo tem de ter um resultado. Depois de processar o que recebeu, o cérebro envia informação de volta para a medula, através das chamadas vias descendentes.
Também aqui existem químicos e recetores envolvidos, entre eles substâncias produzidas pelo próprio corpo com um efeito parecido com o da morfina. O que estas vias fazem é modular a resposta: podem diminuir a dor que sentimos, ou podem amplificá-la.
Existem alguns exemplos do nosso dia a dia que ajudam a compreender melhor como a dor pode diminuir ou aumentar.
Nos jogos de futebol, há quem se magoe a meio do jogo e continue a jogar até o treinador o substituir ou até o jogo acabar. Depois, é comunicado aos adeptos que esse jogador tem uma lesão que o obriga a ficar parado durante algum tempo para recuperar.
Durante o jogo, o cérebro tinha outras prioridades e reduziu a dor. Quando o jogo acabou, a dor apareceu.
Mas o cérebro não serve só para baixar a dor. Também a pode aumentar, e às vezes faz as duas coisas com o mesmo sinal.
Lorimer Moseley, um investigador australiano da área da dor, conta uma história que passou com ele e que ajuda a juntar tudo o que vimos.
Estava a caminhar no mato, na Austrália, quando sentiu qualquer coisa a raspar-lhe na perna. Pensou que era um galho, como tantas outras vezes, e não ligou. Afinal, tinha sido mordido por uma cobra.
Naquele momento, o cérebro dele avaliou a situação com base na experiência: arranhões na perna, no mato, eram galhos, e galhos não eram perigosos. Não havia razão para proteger.
Algum tempo depois, voltou a caminhar no mato e sentiu um toque semelhante na perna. Desta vez sentiu uma dor intensa e ficou em alerta total. Quando olhou, era só um galho.
O dano era praticamente nenhum. Mas o cérebro tinha aprendido que aquele sinal, naquele contexto, podia significar perigo de vida, e produziu dor para o proteger.
A informação que chegou da perna foi parecida nas duas vezes. O que mudou foi a forma como o cérebro a interpretou.
Podes ver o Lorimer Moseley a contar esta história (em inglês, com legendas disponíveis):
Voltando ao exemplo do dedo, a dor que sentimos não é apenas o resultado do que aconteceu no dedo. É o resultado de tudo isto junto.
Não te esqueças
A dor não é um sinal que viaja em linha reta do local da lesão até ao cérebro. Ao longo do caminho há filtros, e o cérebro também responde de volta.
A dor é produzida pela interação de várias regiões do cérebro e do sistema nervoso, e é influenciada pelo que sentimos, pensamos e já vivemos.
É por isso que a mesma lesão pode doer de formas diferentes em pessoas diferentes, e na mesma pessoa em momentos diferentes. Isso não quer dizer que a dor não é real.
Para saberes mais
Bushnell, M.C., Čeko, M. e Low, L.A. (2013) ‘Cognitive and emotional control of pain and its disruption in chronic pain’, Nature Reviews Neuroscience, 14(7), pp. 502–511.
Engel, G.L. (1977) ‘The need for a new medical model: a challenge for biomedicine’, Science, 196(4286), pp. 129–136.
Garland, E.L. (2012) ‘Pain processing in the human nervous system: a selective review of nociceptive and biobehavioral pathways’, Primary Care, 39(3), pp. 561–571.
Melzack, R. e Wall, P.D. (1965) ‘Pain mechanisms: a new theory’, Science, 150(3699), pp. 971–979.
Moseley, G.L. (2011) Why things hurt. TEDxAdelaide. Disponível em: https://youtu.be/gwd-wLdIHjs
Ossipov, M.H., Dussor, G.O. e Porreca, F. (2010) ‘Central modulation of pain’, Journal of Clinical Investigation, 120(11), pp. 3779–3787.