O que é a dor?
Atualizado: 19 de set.
A dor é uma experiência do nosso corpo para nos proteger. É uma experiência sensorial e emocional, que pode estar associada ou não a dano dos tecidos do nosso corpo.
Pode não estar a fazer sentido e parecer demasiado complexo para entender, mas se a analisarmos por partes vais começar a ganhar mais clareza.
Se é uma experiência, a dor não pode ser medida diretamente através de um exame, como medimos a tensão arterial ou a frequência cardíaca. Por isso, aquilo que a pessoa sente e descreve é essencial para perceber a dor. É algo que se vive e que é individual. Isto quer dizer que é única para ti, mesmo que partilhes as mesmas circunstâncias com pessoas que conheces.
Sensorial e emocional porque estão relacionadas. A primeira com as sensações físicas, como quando retiramos a mão ao estarmos muito perto de uma fonte de calor. E a emocional, como quando estamos cansados do trabalho e é aí que aparece a dor de cabeça, ou ganha proporções muito maiores.
E pode existir com ou sem dano nos tecidos. Quantas vezes nos magoamos e só reparamos no final do dia, e outras em que temos dor sem qualquer alteração dos tecidos.
O que influencia a dor
Se a dor fosse apenas o reflexo de uma lesão, seria previsível. Mas não é. Várias coisas podem influenciar a forma como sentimos dor.
A dor não depende apenas do que está a acontecer nos tecidos. O sistema nervoso também recebe informação sobre o que estamos a viver, o que pensamos que está a acontecer e o que esperamos que aconteça.
Fatores que influenciam a experiência da dor
A genética.
O género.
O contexto psicológico e social.
As nossas crenças sobre o que está a acontecer.
As nossas expectativas.
As nossas motivações.
O contexto emocional em que estamos.
Nada disto quer dizer que a dor esteja na nossa cabeça, ou que não é real. Toda a dor, incluindo aquela quando cortamos o dedo na folha de papel ou quando torcemos o pé, tem influência dos fatores mencionados acima.
E porquê? Porque a dor é produzida pelo sistema nervoso, que envolve o cérebro. É aí que o nosso corpo interpreta e dá significado aos sinais que recebe. Daí duas pessoas com a mesma lesão poderem viver experiências completamente diferentes.
O alarme do carro
Há uma comparação que costuma ajudar a perceber com mais clareza o significado da dor.
Pensa no alarme de um carro. O alarme existe para proteger. Se alguém tenta abrir o carro sem permissão, ou tenta danificá-lo, o alarme toca e avisa o dono de que está a acontecer alguma coisa. Isso é útil. É por causa do alarme que o dono pode agir a tempo.
Mas às vezes o alarme fica sensível de mais. Começa a tocar quando um pássaro pousa no capô, quando alguém passa perto, quando o vento sopra com mais força. Não há assalto nenhum, mas o alarme toca na mesma.
E repara, o alarme está mesmo a tocar. O som é real, e quem o ouve não está a imaginar coisa nenhuma. O que mudou não foi o som, foi a sensibilidade do sistema.
Imagina agora que o dono começa a verificar o carro sempre que o alarme toca. Com o tempo, pode ficar constantemente atento a qualquer som. Vive constantemente cansado, frustrado, preocupado e em alerta.
Na dor persistente, algo semelhante pode acontecer. O sistema de proteção pode tornar-se mais sensível e responder de forma mais intensa ou mais frequente do que seria necessário. A pessoa pode começar a gastar muita energia a proteger-se, a evitar movimentos e a estar constantemente à procura de sinais de perigo. É uma reação normal de quem está a tentar proteger-se, mas é exaustivo.
Então podemos desligar o alarme?
No carro, a solução é simples: vai-se ao mecânico e arranja-se o alarme.
Na dor não é assim, e ainda bem. O nosso sistema de proteção é o sistema nervoso, que inclui o cérebro, a medula espinal e os nervos que percorrem todo o corpo. É ele que nos avisa quando alguma coisa não está bem, logo precisamos dele.
O objetivo não é desligá-lo. É ajudá-lo a tornar-se menos sensível quando essa sensibilidade já não está a ser útil.
Existem formas de o conseguir, para que o sistema dispare menos vezes e com menos intensidade. E existem formas de a pessoa se adaptar e recuperar energia, em vez de a gastar toda a correr para a janela para ir ver o carro.
Não te esqueças
A dor é real, mesmo quando os médicos te dizem que os exames estão normais.
A dor não é exatamente a medida de lesão do teu corpo.
E sentir dor persistente não significa que não haja nada a fazer.
Para saberes mais
International Association for the Study of Pain (2020) IASP announces revised definition of pain. Disponível em: https://www.iasp-pain.org
Lalkhen, A.-G. (2021) An Anatomy of Pain: How the Body and the Mind Experience and Endure Physical Suffering. Londres: Atlantic Books.
Raja, S.N. et al. (2020) ‘The revised International Association for the Study of Pain definition of pain: concepts, challenges, and compromises’, Pain, 161(9), pp. 1976–1982.
