Se todos os meus exames estão bem, porque é que tenho dor?
Atualizado: 19 de set.
Esta é a pergunta que ouço mais vezes.
Quando alguém chega pela primeira vez a uma consulta de dor, quase sempre traz consigo a mesma pergunta: se não há nada nos exames, porque é que continuo a sentir dor? E não existe uma solução como uma medicação ou um procedimento médico que cura a dor.
É uma pergunta justa. E costuma vir de quem vive com a mesma dor há meses ou anos, numa procura que não pára, à espera de encontrar aquilo que finalmente vai explicar tudo e devolver a vida como era antes.
Para responder, temos de perceber o que é a dor. E isso é diferente daquilo que nos foi ensinado. Diferente até daquilo que nos ensinaram a nós, profissionais de saúde, durante a nossa formação.
A dor serve para nos proteger
A dor é um mecanismo essencial. É um dos sinais que nos permite perceber que alguma coisa no corpo está desequilibrada: uma fratura, uma infeção, uma lesão. Funciona como um sistema de aviso que diz "presta atenção ".
E não serve só para avisar. Serve também para nos fazer parar. Quando torcemos um tornozelo, ele dói, incha, fica vermelho. Vamos ao médico, tomamos alguma coisa para o inchaço, e sobretudo abrandamos. Damos ao corpo o tempo de que precisa para recuperar. Passado esse tempo, voltamos ao nosso ritmo.
Isto é a dor a fazer o trabalho dela. E é o que acontece na maior parte das vezes.
Quando a dor deixa de proteger
O problema é quando a dor continua para além do tempo de recuperação.
Aí já não está a avisar de nada de novo, e já não está a proteger nada. Passou a ser ela própria o problema, a coisa que interfere no sono, no trabalho, no humor, na relação com os outros.
E é aqui que a explicação habitual deixa de servir. Porque se procurarmos a causa da dor persistente onde procuramos a causa de uma dor aguda, na estrutura, no osso, no músculo, muitas vezes não encontramos nada. Não porque não estejamos a procurar bem, mas porque nem sempre é aí que está a explicação.
Temos a ideia de que é preciso magoarmo-nos para sentir dor, e que quanto maior o dano, maior a dor. Parece óbvio. Mas se pensarmos com atenção no nosso dia a dia, encontramos exemplos que contrariam esta afirmação.
Quando há lesão e não há dor A nódoa negra que aparece na perna e ninguém sabe de onde veio. O corte na mão de que só nos damos conta quando vemos o sangue. As pessoas que descobrem uma fratura antiga num raio-x sem nunca se terem queixado dela. Os atletas que acabam o jogo inteiro e só depois é que sentem a dor da lesão. |
Em todos estes casos houve dano no corpo. Em nenhum deles houve dor na altura, ou houve muito menos do que seria de esperar.
E há o contrário, num caso que ficou conhecido na literatura médica.
Em 1995, o British Medical Journal publicou o caso de um construtor de 29 anos que chegou às urgências depois de saltar para cima de um prego de 15 centímetros, que lhe atravessou a bota de trabalho.
A dor era tão intensa que qualquer movimento do prego se tornava insuportável. Foi preciso sedá-lo com fentanil e midazolam para conseguirem retirar-lho.
Quando lhe tiraram a bota, perceberam o que tinha acontecido: o prego tinha passado entre os dedos. O pé estava completamente ileso.
A dor daquele homem era real. Não estava a fingir, nem a exagerar. O que o corpo dele fez foi responder àquilo que parecia estar a acontecer, e o para ele e para nós seria grave.
Então onde é que a dor acontece?
A dor não se mede nos orgãos, nos ossos ou nos músculos. É uma experiência, e é no sistema nervoso que essa experiência se forma.
Os tecidos enviam informação. Mas é o sistema nervoso que decide o que fazer com ela, e essa decisão depende de muitas coisas: do contexto, daquilo que já vivemos, daquilo que acreditamos que está a acontecer, do que aprendemos ao longo da vida sobre o que significa doer.
É por isso que duas pessoas na mesma situação podem ter respostas completamente diferentes. E é por isso que a mesma pessoa pode sentir a mesma lesão de maneiras diferentes em momentos diferentes.
Nada disto quer dizer que a dor seja imaginada. É o oposto: quer dizer que a dor é sempre real, mesmo quando os exames não mostram nada.O que muda é onde temos de procurar para a compreender, e o que podemos fazer em relação a ela.
A dor é complexa e exige uma explicação que também ela é complexa. Por isso vamos por partes, para que seja mais fácil de entender.
Continua a explorar o conteúdo deste site para entenderes melhor estes conceitos.
Fonte: Fisher, J.P., Hassan, D.T. e O'Connor, N. (1995) 'Minerva', British Medical Journal, 310(6971), p. 70.
